sábado, 8 de junho de 2013

1.1

bate o pé do piano
os olhos reclusos assustam

as bocas abrem lentamente
seguram um fio de saliva morna

descem forçadas
as teclas
sobem pressionadas
as cordas

solta-se a nota

sufocada

feliz do reencontro

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012


desprezo a morada do corpo
e caminho de porta em porta,
na procura de uma casa que me reconheça.

os amigos lembram-me o nome
e eu não lhes lembro mais nada.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011


Sangue do meu sangue,
da carne e de toda a carne
o mesmo sentimento.
A tristeza partilhada
dói menos um pouco.
Um sorriso partido,
são mil bocados
devolvem-me a felicidade aos dias.
O teu sorriso faz-me sorrir.
As tuas lágrimas fazem-me chorar.
Neste tempo que teima em ser pouco, não te esqueço e sei que tu não me esqueces, porque tu existes onde o tempo não me controla, porque tu és de mim o todo de todo o meu sangue. E eu sou o melhor de ti.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Ontem


não há nenhum encanto no tempo.
podia dizer isto com a certeza de ser noite.
podia escrever isto com um sorriso.
podia pensar e sentir ao mesmo tempo.
mas…o tempo não dá tempo para pensar.
não deixa sentir e consigo acreditar que chove.
ontem no tempo de sermos dois.
há um azul de céu lá fora,
onde não o vejo,
e acredito que existe
porque tu o descreves nos olhos que mudam,

nos olhos que lembro...
do mais querido que senti.

domingo, 19 de junho de 2011

todos os nomes.

Cada um de nós traz, no fundo de si, um pequeno cemitério daqueles que amou.  (Romain Rolland)
Antes e depois dos olhos fechados.
Eclodem gestos que não são meus, não sou eu. Surgem inesperados na certeza de estar quieto, acompanham o movimento desta respiração desacertada.
Objectos, sombras, pó. Coisas que devem ter sido pessoas e já não se avistam.
Um perfume igual a outro perfume, um corpo diferente, o mesmo perfume. E nos olhos do teu olhar os meus olhos sentem a tua esperança.
A esperança de encontrar-te. E não encontro nada que sejas tu. Perder-te era ao mesmo tempo esperar-te. Onde estivesses, no presente, como tínhamos planeado.
deste corpo faço a sepultura do teu e de todos os nomes.
A mesma frase. Disseste a mesma frase.
Ouvi-a, pela primeira vez, quando estava apaixonado.
Lembro-me que era a frase que nos rasgava sorrisos quando estávamos aborrecidos. Soltaram-se palavras. Não és tu. Não foste tu e disseste a mesma frase.
As saudades. São sempre as saudades a guardar os nomes.
Se fosse possível recordar-me de todos. E os momentos, o espaço e o tempo.
Se fosse possível não envelhecer e ao mesmo tempo conseguir saber isto tudo.
Se fosse possível morrer lá dentro, no fundo e na superfície das coisas que são estes nomes.
Depois as pessoas transformam-se em coisas. Coisas guardadas dentro das coisas. Com cheiros, com cores. Com outros nomes quando lembro.
Coisas com papéis fraseados, fotografias novas e rostos velhos. Onde me reencontro nas minhas memórias?
Uma imagem de corpo. O teu corpo. Só o teu corpo cheio de um nome. Esse nome tem um perfume. Esse corpo dizia uma frase.
A palavra chegava quando chegavas. Partiu quando tu…
Alguém se atreve neste corpo cravado de cerimónia. Entre a despedida e o começo.
As horas da noite encontram o dia e outros pequenos lavam a cara com a mesma história.
A pele áspera. Sedenta de todas as mãos.
De dentro para fora, todas as mãos sabem porquê.

quarta-feira, 23 de março de 2011

2. Crónica Primeiro Texto

Disseram-me para vir por aqui. Encostados a uma montra, dois homens partilhavam uma conversa. Bonecos de cera vestiam-se de lavado do outro lado do vidro. Calaram-se quando cheguei. Indicaram este caminho, ao mesmo tempo, com o indicador levantado pelo braço, o braço esquerdo e o indicador nesta direcção. Corri o mais rápido que pude, como quem se apressa para apanhar o comboio.
Posso partir na hora certa, desta vez, só desta vez.
Das unhas caía um verniz velho, vermelho tosco de ontem, descalços, nunca se calçam os bonecos nas lojas de roupa, nunca se beijam desconhecidos, mesmo no primeiro encontro, depois de meias horas a falar sobre quase nada, parece tudo, mas não é nada e não se beijam, não deixam acontecer o silêncio dos beijos.
Se te desse um beijo saberias onde dormir. Hoje? Talvez, uma voz gemida sofre dentro de cada corpo que lê. Sem gemas de sal, aspiradas palavras que não deixam de ser surdas quando as noites chegam onde estamos. Onde estamos. Sofrer de dentro, do outro lado do vidro, onde a cera deixa cair o verniz antigo das unhas, os pés descalços no frio plácido de outras horas.
Escolho a roupa e depois o vestir. A seda impossível de encontrar. Dizem-me o mesmo de outra forma. Queria perceber como acontecem os beijos. Partilho um universo contigo e não encontro quem aceite um dia, destes que se separam dos outros dias e que depois ninguém quer. São dias isolados, tornam os homens mais difíceis como pessoas.
Não me interessam beijos, não me interessa o corpo. E quem fica com o dia? Disseram-me por aqui, numa conversa partilhada.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Primeiro Texto

crónica "Por que caminhos"

Uma mão no violino. A música aproxima a única vez que te vi segurar um violino, tentei tocar-te, e entre gestos e imagens deste-me um sorriso que pediu que parasse.


Há um toque no ouvido de quem sabe ver isto. Uma ponte imensa a percorrer, e ainda nenhum passo dado depois, antes um fim, um desfecho cheio de meses contados. A réstia que não serve neste caminho.

Abri esta página dezenas de vezes, para te escrever, para te ver, para nada. E no entanto estás aqui sempre. Quieta, muda, invisível talvez neste canto que é só a imaginação de te ter aqui.

Criar uma forma muda de palavras, fresca de carne e ossos. Poder ver-te mais perto dá outro sentido ao texto. Estavas aqui quando escrevi o primeiro, estavas perto quando te pedi para ficares e agora é como se tivesses morrido.

Este falar sem que me respondas. É como se tivesses morrido sem existires mais. Mesmo quando nos atravessamos por pensamentos que um dos dois faz de conta acontecerem. Quando nos sabemos por perto há quem veja que existimos.

Lembras-te da última vez que passámos um pelo outro? Se tivesse esticado o braço, tinha-te tocado. Se tivesse sussurrado uma palavra, tinhas-me ouvido. Se nos tivéssemos olhado nos olhos, tinhas-me visto?

Dormimos juntos, numa destas noites que passam, sonhaste comigo durante o tempo que durou o sono. Estavas sentada e eu não sei onde estava. Estavas calada e eu falava. Contava-te coisas cheias que nunca tinham acontecido, coisas cheias de importância que tu não ouvias, passava-te a mão pelo cabelo e brincava com a forma da tua cara, pintada de pontos de encontro.

Uma mão no piano. A música gravou a única vez que te ouvi. Estavas longe e disseste-me adeus, dei-te uma lágrima que pediu para começar de novo.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Defeito

crónica "Por que caminhos"

Há um tipo de doença que não desaparece. Embora se trate ininterruptamente, dia após dia, noite seguida de noite, não se cura. Às vezes acordamos sorridentes, com pensamentos novos, os antigos refeitos, vestimos a roupa de segunda-feira e esquecemos a sétima missa.


As roupas respiravam mais sorrisos, as pessoas eram renovadas e ainda não lhes conhecia o nome. Mas entre uma rua e outra esquina, a doença voltava. Entre olhos, em volta de um olhar que se cruza sem a certeza de se cruzarem, conheço-lhe o rosto. Doente. Não se alterou nada no corpo, visão, respiração, pensamento, sentimento. Não se alterou nada e o corpo da pessoa sabe que está continuadamente doente.

Depois de largar passos dados em lados opostos e sentidos concretos de um discordante, volto-me para trás, num círculo fechado no mesmo lugar. Passos que tocam os braços no seguimento dos pensamentos deitados, chego onde a vista aberta alcança e não vejo nada. Estou doente e ainda estou doente.

Entre este momento e a chegada ao destino de quem espera, impaciente, sou invadido, como se por vontade se formassem todos os pensamentos de outrora e outra vez, sem ser esta, na mente que pensa ao lado da mente que mente, no coração, no sentimento. Volto a parar e tento o regresso, dispo-me, desperto.

Um pensamento que respira molhado, outro pensamento que sobe mais alto do que o primeiro, e os olhos que me avistam da cama antes da noite. Um pensamento que abre o espasmo de saber, assim, o copo e o gelo, e depois os olhos, ainda os olhos doentes a avistarem o fim da música.

sábado, 6 de novembro de 2010

Menos uma Hora

crónica "Por que caminhos"

Pediram-me uma hora emprestada, pediram-me sem favor. Chegaram e levaram.


Estava distraído a ler uma gravata que falava, esta passava cavaco às tropas, todos faziam continência entre vírgulas e pontos de exclamação. Algumas gravatas sentadas atrás da mesa comiam com os olhos nas mãos do vizinho, olhavam de tempo em tempo para a gravata que falava, diziam que sim, batiam palmas, diziam que sim, batiam palmas.

Quando me levaram uma hora emprestada não me deixaram nada que a compense, disseram apenas que daqui a uns meses a devolviam, acreditei, mas agora surgiram-me algumas questões. A noite ontem chegou mais cedo, pensei que as águas do monte tinham rebentado e uma nuvem de cinzas havia escondido o sol. Não. Estava enganado. Não tinha acontecido nenhuma explosão.

- A escuridão chega mais cedo para os homens da noite viverem mais tempo.

Um fato limpo enxuga uma cara lavada. A camisa abotoada até ao telhado e nas mãos o tecido branco das luvas. Discursam durante a hora sentada, entram-nos pela casa, pelo carro, pelos olhos e pelos ouvidos sem licença. Invadem-nos a hora de jantar, a hora de sermos família, para nos dizerem que os pães que hoje comemos por inteiro terão que ser divididos amanhã.

Mudam de roupa e esquecem as palavras. Mudam de roupa e esquecem o chão que pisam. Mudam de palavras e usam a mesma gravata.

O escuro ilumina-se mais cedo, uma hora mais cedo, aconteceu uma explosão de mentiras aqui perto. Ouve-se na rádio, vê-se na televisão.

Sente-se logo, assim que os olhos se abrem no começo do dia com uma hora a menos.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Carta fotográfica

crónica "Por que caminhos"


Estava sempre a pensar como seria este momento, voltarmos a falar, saber as novidades que os anos tinham tentado apagar. Sonhava com isto, tinha a sensação que tudo já tinha acontecido, ficava confuso e perdido entre a…
…imaginação e a realidade.
Há cartas que me custam muito a escrever, como se as pessoas me viessem dizer que tinha razão no que disse ou que estava enganado. Não dizem nada. Hoje não se diz nada. E o Mundo? Para onde vai este mundo se já não pensamos no amanhã?
Depois no acontecer é tudo diferente, as perguntas são as mesmas e só um de muitos é que tem a sensação dos anos. Eles têm medo de dizer estas palavras. Não dizem o que sentem. Não têm saudades. Não gostam. Não procuram o que querem.
Escrevi dezenas de cartas que nunca chegaram ao correio, nunca saíram da gaveta. Algumas delas não têm destinatário, isto lembra a alguém? Uma carta que não tem nome no começo, que não tem nenhuma despedida no fim, não leva beijinhos nem abraços, nada.
Seguro fotografias, antigas, com caras que reconhecemos dos jantares que jurámos fazer para sempre, algumas têm pequenos textos guardados nas costas, recordam a ocasião e a data celebrada. Eram festas sem causa e com muita consequência. Outras, estão rasgadas de momentos menos felizes, têm caras de quem não lembro o nome. Não existem, o que não tem nome deixa de existir, desaparece com o quente e frio de muitos olhos a passarem.
Isto não aconteceu ontem, nem antes, falámos agora. Escrevemos em forma de carta para alguém que não estava presente. Fizemos uma fotografia de grupo e várias individuais para juntar a cada carta, deixámos tudo bem arrumado e saímos para a festa.
Entre a imaginação e a realidade encontrámos os nossos, os de ontem e os de outro dia, ficámos juntos durante o tempo possível, não fosse o amanhã mais um sonho estranho com cartas sem nome e fotografias desconhecidas.