quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

crónica "Por que caminhos"

Vai voltar a valer a pena.
A carteira gasta, uma imitação barata de pele que alguém lhe tinha oferecido em jeito de lembrança. Os pequenos bolsos já tinham deixado a cor e a forma, já não cheiravam a novo, já não guardavam nada. A mesma fotografia. Os anos passados em volta.
Percorre a sala de jantar com o olhar, não existe ninguém que o conheça, na rua um estranho deseja-lhe uma boa noite. Em silêncio. Não há nada para retribuir, nem a noite nem o vazio. Não há ninguém que o conheça na sala, ninguém na rua. Ninguém. E a sala de jantar fechou.
Há um aniversário. Um casal de namorados. Uma família. Um grupo de amigos que festeja a noite. Uma mulher sozinha. Um homem sozinho. Dois empregados.
- Uma mão delicada vem ao encontro da minha. Gosto das tuas mãos. Os dedos são frios. Como se soubessem que aquela frase carrega o medo. O medo de não conseguir esquecer. O medo de não permitir. O medo do não acontecer. O medo simples. O medo confuso. O medo com medo.
A mão fria segura a mão quente.
- Tens a mão quente. Tens sempre as mãos quentes. Estás aqui sozinho, estás sempre aqui sozinho. Não tens medo de nada. Não podes perder nada porque já tens tudo. Eu perdi tudo, perdi tudo o que tinha. E sinto medo por isso, por voltar a perder tudo o que ainda não tenho.
A carteira gasta paga o jantar dos dois. A fotografia jovem, guardada com carinho no único compartimento saudável da carteira. Longe das senhas para o almoço, separada das moedas, segura da sujidade vulgar das notas. Ela segura a fotografia e com um sorriso de olhos molhados diz: Fiquei mesmo bem nesta. Vê-se logo que não foste tu a tirar. Amanhã vamos comprar-te uma carteira.
Guardam-se as prendas de aniversário depois da festa, descansam-se os pés depois das horas musicadas, deitam-se no escuro quente. Os olhos desenham imagens em tons verdes e amarelos na parede, os ouvidos soltam o timbre da música e suspiram. Acreditam que vão conseguir ser felizes. Vai voltar a valer a pena.

quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

Pensei

crónica "Por que caminhos"

Hoje vai ser um dia feliz. – pensou.
Cheguei sozinho. Encontrámo-nos na esquina da rua que descia para o estacionamento, seguimos os dois. Um amigo depois de outro. O ar carregado de centenas de pessoas. Deviam ser estas todas pelo barulho que faziam, mas a noite era disso mesmo. Uma festa mais pequena que acontecia dentro de uma festa maior, muito maior.
- Achas que devo levar casaco?
- Estamos em Outubro, o Verão chegou agora e está uma noite muito agradável.
- Sim, está calor. Mas o tempo troca-me as voltas. Não sei quem imita quem. As pessoas também mudam assim, têm épocas, períodos, climas. De manhã estão felizes. Durante a tarde irritadas. Quando chega a noite choram. E não é essencial que sigam esta ordem. Estás a ver aquelas nuvens? Quando voltarmos para casa vão estar exactamente aqui, prontinhas para nos lavarem o cabelo e a alma. Deixo o casaco e com ele todas as realidades que me lembram pessoas e momentos. Não precisamos de nada hoje.
Antes de conseguir a coragem para falar já as palavras se arrumavam dentro da minha cabeça. Sentia a incerteza de não ter a sentença certa, não estava determinado, mesmo depois de ter decidido a sensação de segurança fugia depois dos minutos. Em segundos alcançava a vontade de dizer o que queria dizer. Depois os minutos e parece que se desvanecia a energia de querer, de conseguir, de fazer, de ser.
Tu não me ouves. – pensei. Não podes conseguir ouvir-me daí, desse poço escuro, sem espelhos, sem objectos, sem pessoas. Tu não me vês. – pensei. Tens os olhos carregados de tristezas que navegam de um lado para o outro. Hoje foi um dia feliz. – disse-lhe.
Quando me deixou no lugar onde nos tínhamos encontrado, seguimos caminhos opostos. Observei as nuvens. Contemplei a lua que acontecia com o céu carregado e lembrei-me de todas as palavras, de todos os encantos, de todas as promessas, das desilusões, do perdão, da vontade, do querer. A certeza porém, um dia será diferente. Começa uma chuva quente. Hoje queremos que o tempo passe mais rápido, já não temos receio.
Hoje foi um dia feliz. – pensei…

quinta-feira, 10 de Setembro de 2009

Acontecimentos

Crónica "Por que caminhos"

Avariou-se-me o carro, o motor cansou-se, disse o médico. Indaguei que não era possível. Tão novo, tão capaz e já cansado. A cara jovem, o corpo farto não aceitavam o diagnóstico, mas o doente não era eu. Foi o carro e tinha mesmo a máquina estragada, a do carro, a do corpo só estava avariada. A máquina do corpo, cansada, a dormir em serviço, no repouso quando se pede esforço e claro, o corpo a suar, trémulo, ansioso e depois do curioso que também veio chegou o medo. Esse medo capaz de terminar as coisas e resolver todos os problemas, esse receio que nos faz ficar em casa, porque a máquina só está avariada, mas obriga ao descanso.
- Fica em casa uns dias, anda a pé. – disse o mecânico ao médico. O profissional de saúde informou o doente.
Disseram-me tudo direitinho, passou-me a vontade de uma conversa com o carro, não me podia stressar contou o médico.
Consigo uma das curas com dinheiro e a outra trato-a com precaução, as duas pedem paciência. É mais fácil resolver uma do que a outra disse-me o mecânico, estas coisas de óleo não são fáceis de perceber.
Ontem, se não me falha a memória, pode ser o “ontem” do leitor, o meu é agora, conversava com uma amiga que percebe destas avarias, de uma delas, não a imagino na labora de óleos e ferramentas pesadas.
- Tu atrais o azar. – dizia-me, com uma sensível imaginação. Via nos olhos dela um carro a perder os travões e a esmagar-nos contra os bancos da praça.
Outro amigo, que não tinha tempo para nada, andava sempre ocupado com a procura de arranjar tempo para ter tempo, faltava-lhe tanto, o tempo para os amigos, o tempo para a família, o tempo para o descanso, o tempo para viver. Ele pensava que vivia, já não conseguiu descobrir que estava enganado. Dar valor ao fantástico que é a Vida é simplesmente desfrutar do melhor que temos. Fazendo os que nos rodeiam felizes, sendo felizes. A falta de tempo faz-nos perder tudo, morreu com um problema na máquina e nem andava de carro. Foi atropelado.

quinta-feira, 6 de Agosto de 2009

A realidade

Crónica "Sombra de Chuva"

Numa casa longe de todos e perto de tudo há uma mesa cheia de gente, uma mesa pequena, a conversa é longa e vai longe a vontade de voltar a olhar o relógio. O silêncio não se respira, tiram-se os olhares do chão, aumenta-se o volume da música acompanhada pelo frango que serve de petisco, regado pela cerveja que lava os lábios depois de limpos os dedos. Eles comem, falam, sentem…vivem.
Nas costas, uma paisagem verde a perder de vista, rasgada por cabos eléctricos, pintada por inúmeros telhados que desenham casas, ao longe fala um comboio que passa a dar as horas e em redor não se avista mais ninguém. Diante dos olhos, os amigos conversam, riem, abraçam-se, trocam olhares cúmplices e gestos de carinho, abre-se o coração sem medo, como se estivéssemos sempre juntos, as mesmas pessoas, a mesma rotina na rotina, como se fosse aquela a casa de todos e aquele lanche mais um lanche, mas não…
Todos os corações carregam medo e ali se desprendem das emoções porque nada pode acontecer de mal. Todas aquelas pessoas são boas pessoas, gostam da nossa presença e querem-nos como companhia. E aquela casa que não é de ninguém, mas de todos, torna-se um abrigo, onde se libertam os medos e se desfruta do sorriso. Aquele lanche que não é mais um, acontece quando menos se espera e por isso não existem necessidades nem marcações, a realidade acontece independentemente da vontade.

sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Olhos da terra

crónica "Sombra de Chuva"

Depois de quieto, parado, estático e ainda sem se mexer. Alguns continuam a chegar, poucos estão atrasados, os que não querem vir não existem. Os olhos longe, as mãos caídas em cima da mesa, uma esperança pelo sol, o céu carregado, as nuvens pesadas, todas as bocas fechadas sorriem para os olhos.
O oceano longe, a perder de vista e ainda antes de conseguir ver alguma coisa, volta o cheiro da terra molhada fora de época. As cegonhas multiplicam as casas, fazem novos telhados, novos postes, novas torres, onde não havia nada, onde nada se via. O levantar dos olhos da terra, o subir calmo pelas raízes, o beijar as paredes e conseguir chegar ao telhado, o existir, mais, muito, ainda.
Como se fosse chover com calor, a terra quente, o céu todo pintado, as cores dum fogo sem fumo. Amanhã o dia será diferente, as mães aves vão conseguir voltar com comida, as pessoas voltam a sair de casa com esperança, e eu, já não terei nada para contar.
Ontem ouvia contos, uma senhora com a idade na voz e na pele, contava-me os anos passados, o trabalho de guarda de uma passagem de nível, os anos todos a ver comboios, e hoje ainda, agora, ficava assim, quieta ao meu lado, a vermos os comboios a passar. Levantou duas vezes a mão, segurando uma bandeira faz de conta, os comboios apitavam, ela sorria-me e dizia que alguns ainda a conheciam, não lhe desfiz o encanto, estávamos perto de uma estação, todos apitavam.
Depois de quieto, levantam-se de uma só vez, a mesa deixa de ter mãos, chega a certeza do sol, depois a terra volta a ser seca. As luzes apagam-se e todos cantam, no fim as palmas, os abraços, os beijos. Comem uma fatia do bolo e bebem todos do mesmo copo, prometem voltar daqui a um ano.
A senhora com a idade na voz e na pele não voltou, disse-me na última vez que os comboios estavam cada vez mais rápidos e que tinha medo que algum lhe levasse a bandeira.

quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Passos sozinhos

crónica "Sombra de Chuva"

Escuto o silêncio íntimo do dia, revejo os passos na areia, procuro o corpo dono, o mar corrige as marcas dos pés sempre a desenharem, sigo para lugar nenhum.
Os mesmos passos sozinhos, antes de saber o nome da confusão, uma gaivota doente abandonada por todas, mil aves a conseguirem ser autênticas, o encanto de um dia vulgar. As máquinas acodem aos homens no regresso das redes, trazem o dinheiro em figura de peixe, cercados pelo povo assistem pobres os olhos famintos, este fado moderno do que já estava guardado, comem a desejar melodias, das mãos seguras de vontades.
Esta imagem viva e real cria o quadro, guardo-o no bolso húmido dos calções e afasto-me a medo sem voltar as costas às redes; desenho siglas estranhas na areia húmida e retiro uma rosa do bolso seco, seguro os espinhos delicadamente, solto-lhe as pétalas depois de um beijo demorado, lábios, carne, pele, calor, corpo. Deixo de contrariar a vontade, deito-me na fronteira da água imaginada com o mar verdadeiro, volto a molhar o bolso encharcado e apago o quadro, deito a rosa solenemente sobre a areia, solto-a.
As marcas lado a lado pintadas de molhado, corridas em salgado completam o caminho para os sorrisos. Deixo-me na espera do beijo vivo do sol com o mar, os pés molhados, as costas quentes contra o peito, as mãos entrelaçadas, a cabeça descansa no ombro, os olhos fecham-se e a luz não volta a desaparecer, os dedos fazem o mesmo som da água com areia, aquele vento contra os pelos pequenos, os braços juntos comparam o tamanho do aperto, apagam-se os passos sozinhos, as mãos seguram o presente com felicidade, soltam-se os medos, as promessas contadas de olhos ainda fechados sentem-se no coração, como um som que vem de dentro, ainda fundo no interior sem querer ver, desenham-se os passos juntos.
Escuto o descanso da noite a nascer, revelo os passos na areia, o mar desiste e recua, os teus pés entrelaçam os meus numa única marca suada e quente.

quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Santo fumo

crónica "Sombra de Chuva"

Vou deixar-te ser livro, árvore e filho. Tudo ao mesmo tempo, com a certeza que te vais safar bem sozinho, não tenhas medo das mãos, não chores quando te deixarem cair, não desesperes se te esquecerem. Vive convicto que foste, és e serás eterno, depois de mim, tu. Nesta ausência da realidade, neste quebrar de regras de Homens, o grito baixo da saudade, da vontade, da esperança.
As palavras estão vivas.
Quando voltares, se ainda quiseres saber o nome, procura na caixa de cartão os bilhetes. Se ainda sentires a curiosidade do cheiro, fecha os olhos delicados, morde o lábio de papel, deixa o toque acontecer com mãos macias, os beijos molhados de tão quentes, apaga isso tudo.
O olhar escondido no branco, as imagens a levarem o santo fumo da casa, os panos negros a riscarem a vertical das paredes, os fantasmas, os gritos, as conversas verdadeiras com vozes que não existem.
Os amigos gostaram de ver o sorriso, ficaram felizes também, como se fosse contagiante o choro de realizar, a busca pelo conforto, os minutos a passarem até ao fim, os olhos a não verem nada, o nervoso de conseguir alguma coisa. A cara de orgulho, outras de espanto, as caras presentes, as caras ausentes que também estavam, também estavam presentes, porque a falta sente-se com a vontade. Gostei de ver as caras das pessoas que não estavam, faziam a multidão com as caras das pessoas que estavam, dizia os nomes na voz da cabeça e sorria para as pessoas que estavam.
Se voltares… O sonho aconteceu de verdade, as palavras fizeram frases, os textos deram a voz às folhas, o livro viu luz, os amigos bateram palmas com sorrisos, o piano sonhou, o violoncelo dançou, e eu, feliz.

«Aos que me aprovam, estimam e consentem.»
Obrigado pelas oportunidades. Obrigado pela paciência. Obrigado pela amizade, pelo carinho, pelo amor. Obrigado por existirem tanto.

quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Ausência de mim


A Junta de Freguesia do Louriçal, o autor e a edium editores, têm o prazer de convidar V. Exa. a estar presente na sessão de lançamento do livro "Ausência de mim" a ter lugar na Antiga Igreja do Recolhimento (Louriçal), no próximo dia 24 de Abril, sexta-feira, pelas 21.30 horas.
A obra será apresentada pelo poeta Xavier Zarco, prefácio da Dr.ª Ana Moço.

Para adquirir um exemplar envie um email para:
joao.jcs@gmail.com