crónica "Por que caminhos"
Vai voltar a valer a pena.
A carteira gasta, uma imitação barata de pele que alguém lhe tinha oferecido em jeito de lembrança. Os pequenos bolsos já tinham deixado a cor e a forma, já não cheiravam a novo, já não guardavam nada. A mesma fotografia. Os anos passados em volta.
Percorre a sala de jantar com o olhar, não existe ninguém que o conheça, na rua um estranho deseja-lhe uma boa noite. Em silêncio. Não há nada para retribuir, nem a noite nem o vazio. Não há ninguém que o conheça na sala, ninguém na rua. Ninguém. E a sala de jantar fechou.
Há um aniversário. Um casal de namorados. Uma família. Um grupo de amigos que festeja a noite. Uma mulher sozinha. Um homem sozinho. Dois empregados.
- Uma mão delicada vem ao encontro da minha. Gosto das tuas mãos. Os dedos são frios. Como se soubessem que aquela frase carrega o medo. O medo de não conseguir esquecer. O medo de não permitir. O medo do não acontecer. O medo simples. O medo confuso. O medo com medo.
A mão fria segura a mão quente.
- Tens a mão quente. Tens sempre as mãos quentes. Estás aqui sozinho, estás sempre aqui sozinho. Não tens medo de nada. Não podes perder nada porque já tens tudo. Eu perdi tudo, perdi tudo o que tinha. E sinto medo por isso, por voltar a perder tudo o que ainda não tenho.
A carteira gasta paga o jantar dos dois. A fotografia jovem, guardada com carinho no único compartimento saudável da carteira. Longe das senhas para o almoço, separada das moedas, segura da sujidade vulgar das notas. Ela segura a fotografia e com um sorriso de olhos molhados diz: Fiquei mesmo bem nesta. Vê-se logo que não foste tu a tirar. Amanhã vamos comprar-te uma carteira.
Guardam-se as prendas de aniversário depois da festa, descansam-se os pés depois das horas musicadas, deitam-se no escuro quente. Os olhos desenham imagens em tons verdes e amarelos na parede, os ouvidos soltam o timbre da música e suspiram. Acreditam que vão conseguir ser felizes. Vai voltar a valer a pena.
Vai voltar a valer a pena.
A carteira gasta, uma imitação barata de pele que alguém lhe tinha oferecido em jeito de lembrança. Os pequenos bolsos já tinham deixado a cor e a forma, já não cheiravam a novo, já não guardavam nada. A mesma fotografia. Os anos passados em volta.
Percorre a sala de jantar com o olhar, não existe ninguém que o conheça, na rua um estranho deseja-lhe uma boa noite. Em silêncio. Não há nada para retribuir, nem a noite nem o vazio. Não há ninguém que o conheça na sala, ninguém na rua. Ninguém. E a sala de jantar fechou.
Há um aniversário. Um casal de namorados. Uma família. Um grupo de amigos que festeja a noite. Uma mulher sozinha. Um homem sozinho. Dois empregados.
- Uma mão delicada vem ao encontro da minha. Gosto das tuas mãos. Os dedos são frios. Como se soubessem que aquela frase carrega o medo. O medo de não conseguir esquecer. O medo de não permitir. O medo do não acontecer. O medo simples. O medo confuso. O medo com medo.
A mão fria segura a mão quente.
- Tens a mão quente. Tens sempre as mãos quentes. Estás aqui sozinho, estás sempre aqui sozinho. Não tens medo de nada. Não podes perder nada porque já tens tudo. Eu perdi tudo, perdi tudo o que tinha. E sinto medo por isso, por voltar a perder tudo o que ainda não tenho.
A carteira gasta paga o jantar dos dois. A fotografia jovem, guardada com carinho no único compartimento saudável da carteira. Longe das senhas para o almoço, separada das moedas, segura da sujidade vulgar das notas. Ela segura a fotografia e com um sorriso de olhos molhados diz: Fiquei mesmo bem nesta. Vê-se logo que não foste tu a tirar. Amanhã vamos comprar-te uma carteira.
Guardam-se as prendas de aniversário depois da festa, descansam-se os pés depois das horas musicadas, deitam-se no escuro quente. Os olhos desenham imagens em tons verdes e amarelos na parede, os ouvidos soltam o timbre da música e suspiram. Acreditam que vão conseguir ser felizes. Vai voltar a valer a pena.

